O Estudo e Tradução do Sutra de Vimalakirti por Étienne Lamotte
Pontos principais
- Étienne Lamotte utilizou cerca de 200 manuscritos sânscritos e tibetanos para a obra.
- A tradução baseou-se primordialmente na versão tibetana do Bkah-gyur, com complementos da versão chinesa de Xuanzang.
- A obra estima a origem do Sutra de Vimalakirti entre o século II e III d.C.
- A edição em inglês foi publicada em 1976 pela Pali Text Society.
A obra intitulada L'Enseignement de Vimalakīrti (Vimalakīrtinirdeśa), produzida pelo estudioso Étienne Lamotte, constitui um estudo aprofundado e uma tradução do Sutra de Vimalakirti (VKN). Publicada originalmente em francês em 1962 pelo Institut orientaliste da Universidade Católica de Louvain, a obra foi posteriormente traduzida para o inglês por Sara Boin e publicada em 1976 pela Pali Text Society.
Metodologia de Pesquisa e Tradução
Para a elaboração do livro, Lamotte utilizou aproximadamente 200 manuscritos em sânscrito e tibetano para colacionar e corroborar o material. A tradução principal baseou-se na versão tibetana do Bkah-gyur (Catálogo Otani Kanjur, Kyoto, No. 843), enquanto as variações e adições da versão chinesa, conforme encontradas no Taishō Tripiṭaka e traduzidas por Xuanzang, foram catalogadas detalhadamente.
A estrutura textual de Lamotte diferencia as fontes por meio de tipografia: as traduções diretas do texto tibetano aparecem em caracteres normais, enquanto o texto de origem chinesa é apresentado em caracteres menores. Termos originais em sânscrito, derivados de fragmentos citados no Śikṣāsamuccaya de Śāntideva, são inseridos em itálico e entre colchetes após as traduções francesas. Lamotte optou por não tentar reconstruir o texto sânscrito original completo, dada a impossibilidade técnica enfrentada por outros estudiosos anteriormente.
Estrutura e Conteúdo da Obra
A introdução do livro examina a posição histórica e canônica do Sutra de Vimalakirti, estimando que a obra original date do segundo ou terceiro século d.C. Lamotte analisa as fontes do sutra, abrangendo o Tripitaka, sutras do Vinaya, sutras paracanônicos e sutras do Mahayana, além de listar traduções existentes em chinês, khotanês, sogdiano e tibetano.
O trabalho inclui anotações filológicas que identificam clichês da literatura budista em sânscrito e pali, identificam bodhisattvas e arhants, e discutem a restituição de termos técnicos. Um apêndice notável na versão francesa é o ensaio Vimilakīrti en Chine, de Paul Demiéville, que discute a influência do texto na tradição budista chinesa.
Recepção Acadêmica
A recepção da obra foi predominantemente positiva, embora com críticas pontuais. O pesquisador Richard H. Robinson descreveu a tradução como clara, metódica e geralmente precisa, destacando que Lamotte conseguiu revelar o original indiano subjacente à tradução tibetana e resolveu centenas de pontos obscuros das versões chinesas.
Entretanto, Robinson apontou falhas no formato, sugerindo que muitas discussões nas notas de tradução deveriam ter sido movidas para os apêndices para maior acessibilidade. Ele também criticou a inclusão excessiva de termos em sânscrito no corpo do texto, sugerindo a criação de um glossário. Do ponto de vista filosófico, Robinson argumentou que Lamotte, por vezes, obscureceu distinções filosóficas importantes ao tentar reduzir a dialética ao dogmático, falhando em explicar plenamente a dualidade entre o relativo e o absoluto que fundamenta o texto.
Apesar dessas críticas, a obra é considerada por Robinson como o tratamento filológico mais adequado de um grande sutra Mahayana em língua moderna. A edição em inglês foi descrita por Paul Williams como "estremamente bem-sucedida", embora tenha lamentado a omissão do ensaio de Demiéville nesta versão.
Perguntas frequentes
Quem foi o autor da tradução e estudo do Sutra de Vimalakirti discutido?
O autor foi Étienne Lamotte, um renomado estudioso de budismo, que publicou a obra originalmente em francês em 1962.
Qual a base textual utilizada por Lamotte para sua tradução?
Lamotte baseou sua tradução principalmente na versão tibetana do Bkah-gyur, comparando-a com a versão chinesa do Taishō Tripiṭaka.
Quais foram as principais críticas feitas por Richard H. Robinson à obra?
Robinson criticou a organização do formato (notas excessivas no texto), a redundância de termos em sânscrito e a simplificação de certas distinções filosóficas dialéticas.
Qual a diferença entre a edição francesa e a edição inglesa?
A edição inglesa, publicada em 1976, inclui uma nova introdução e notas adicionais, mas omite o ensaio 'Vimilakīrti en Chine' de Paul Demiéville.