Música

Intervalo Incomposto na Teoria Musical Grega

Pontos principais

  • O intervalo incomposto é definido pela função melódica e não apenas pela magnitude física do som.
  • A classificação de um intervalo como composto ou incomposto depende do gênero musical (diatônico, cromático ou enharmônico).
  • No gênero enharmônico, o ditono é considerado um intervalo incomposto.
  • Nicola Vicentino expandiu o conceito no século XVI para distinguir entre saltos melódicos e progressões por graus conjuntos.

O intervalo incomposto (do grego antigo diástema asýntheton) é um conceito fundamental da teoria musical da Grécia Antiga. Ele se refere a intervalos melódicos entre notas adjacentes em um tetracorde ou escala que, dentro de um contexto melódico específico, não abrangem intervalos menores.

Definição e Perspectiva de Aristoxeno

Aristoxeno (c. 335 a.C.) definiu o intervalo melódico incomposto não como uma impossibilidade física de cantar uma nota intermediária, mas como uma necessidade da melodía. Para Aristoxeno, um intervalo é incomposto se a voz, ao executar uma melodia, não pode dividi-lo em intervalos menores sem comprometer a natureza da composição.

Essa distinção é crucial: a característica de ser "composto" ou "incomposto" não reside na magnitude física do som (o tamanho do intervalo), mas no caráter dinâmico do movimento melódico. Por exemplo, no gênero enharmônico, a distância entre as notas lichanos e mesē é um ditono (equivalente a uma terça maior moderna). Embora seja fisicamente possível cantar notas entre essas duas, a função melódica da nota lichanos exige que a melodia salte diretamente para a mesē, tornando qualquer distância menor melódica ou intelectualmente incompreensível (ekmelēs).

A Estrutura dos Gêneros e a Composição de Intervalos

Gaudentius (antes do século VI d.C.) complementou essa visão ao explicar que intervalos são incompostos quando, entre as notas que os definem, não existe nenhuma outra nota que seja melódica em relação ao gênero utilizado. Quando um intervalo contém notas intermediárias cantadas, ele é considerado composto, sendo frequentemente referido como uma escala.

A natureza de um intervalo dependerá inteiramente do gênero do tetracorde em uso, conforme detalhado por Nicômaco no século I d.C.:

  • Gênero Diatônico: Caracteriza-se por tons e semitons. O semitom é aqui um intervalo incomposto.
  • Gênero Cromático: Utiliza semitons e um intervalo indiviso de três semitons.
  • Gênero Enharmônico: Utiliza a diesis (metade de um semitom). Neste gênero, o semitom é um intervalo composto, pois é formado por duas dieses.

Aristides Quintiliano (século III d.C.) enumerou os tamanhos típicos de intervalos incompostos, partindo da menor diesis enharmônica, seguida pelo semitom, o tom e, finalmente, o ditono.

Evoluções e Interpretações Posteriores

No século XVI, Nicola Vicentino, em sua obra L'antica musica ridotta alla moderna prattica (1555), estabeleceu que todos os intervalos maiores que a terça maior (ditono) são necessariamente compostos. Contudo, para analisar a prática musical de sua época, ele expandiu a definição: uma quarta justa, por exemplo, seria "composta" se fosse preenchida por graus conjuntos (C-D-E-F), mas "incomposta" se ocorresse como um salto melódico ou intervalo harmônico sem notas intermediárias.

Interpretações do século XX tornaram a definição mais restritiva, referindo-se a intervalos grandes que funcionam como um passo melódico (segunda) em uma escala específica, mas que seriam considerados saltos em outras escalas. Um exemplo clássico é a segunda aumentada na escala menor harmônica, que atua como um passo entre a sexta e a sétima notas, apesar de ter a mesma magnitude de uma terça menor.

Perguntas frequentes

O que define um intervalo como 'incomposto' na música grega antiga?

Um intervalo é incomposto quando, dentro de um contexto melódico e de um gênero específico, a voz não divide o espaço entre duas notas sucessivas em intervalos menores.

Qual a diferença entre a visão de Aristoxeno e a capacidade física de cantar?

Aristoxeno argumentava que a natureza da melodia exige que certos intervalos sejam saltados sem notas intermediárias, independentemente de a voz ser fisicamente capaz de produzir sons entre as notas.

Como o gênero musical afeta a classificação do intervalo?

Um mesmo intervalo pode ser incomposto em um gênero e composto em outro. Por exemplo, o semitom é incomposto no gênero diatônico, mas composto no gênero enharmônico, onde é dividido em duas dieses.