A Cruz de Execução na Antiguidade: Descrições e Tipologias
Pontos principais
- A terminologia de 'crux simplex' e 'crux compacta' foi criada por Justus Lipsius no século XVI, não na Antiguidade.
- Fontes como Irineu e Justino Mártir descrevem a cruz como tendo cinco extremidades, indicando a presença de uma viga transversal.
- Sêneca e Flávio Josefo documentam que a crucificação podia variar em forma e método dependendo da crueldade dos executores ou da quantidade de vítimas.
As descrições da cruz de execução na Antiguidade, provenientes tanto de fontes cristãs quanto não cristãs, indicam que o instrumento utilizado para a pena de morte por crucificação era geralmente composto por duas peças de madeira. Embora a estrutura básica fosse comum, a natureza da junção dessas peças — se eram permanentemente fixadas ou montadas apenas para a execução — não é detalhadamente especificada nos relatos da época.
Variações e Criatividade Cruel
A crucificação não seguia um padrão rígido e imutável. Sêneca, o Jovem, observou que as execuções em estruturas semelhantes a cruzes podiam variar, especialmente quando os executores decidiam aplicar o que ele chamou de "criatividade cruel", adaptando o instrumento para aumentar o sofrimento da vítima.
Terminologia e Classificações Posteriores
É fundamental distinguir entre as descrições contemporâneas ao fato e as classificações acadêmicas posteriores. A terminologia frequentemente utilizada hoje para descrever os tipos de cruz foi criada por Justus Lipsius (1547–1606), um humanista do século XVI, e não era utilizada pelos cristãos primitivos ou por seus contemporâneos.
Classificações de Lipsius
Lipsius propôs uma distinção entre a crux simplex (estaca única) e a crux compacta (composta por mais de uma peça de madeira):
- Crux simplex: Dividida em ad affixionem (onde a vítima era presa e deixada para morrer) e ad infixionem (utilizada para empalamento).
- Crux compacta: Subdividida em três formas principais: crux decussata (em forma de X), crux commissa (em forma de T) e crux immissa (em forma de †).
Essa categorização é debatida por historiadores modernos. Alguns estudiosos, como Hermann Fulda e Gerald G. O'Collins, argumentam que a distinção entre a crux commissa e a crux immissa é desnecessária ou carece de base factual sólida.
Evidências de Estruturas Compostas
Diversos autores da Antiguidade descrevem a cruz como um objeto composto por múltiplas vigas:
Relatos Cristãos Primitivos
- Irineu de Lyon: No início do século II, observou que a forma da cruz possuía cinco extremidades: duas no comprimento, duas na largura e uma central, onde a pessoa era fixada.
- Justiniano Mártir: Ao comentar o livro de Deuteronômio, descreveu a cruz como tendo uma viga vertical da qual a extremidade superior se elevava, e outra viga ajustada a ela, criando extremidades laterais.
- Tertuliano: Respondeu a críticas pagãs afirmando que a cruz cristã era completa, possuindo uma viga transversal e um assento projetado.
- Atos de Pedro: Este texto apócrifo do século II distingue explicitamente entre a viga vertical e a viga transversal (travessa).
Relatos Não Cristãos
A evidência de que a cruz era composta por mais de uma peça de madeira também aparece em fontes pagãs. Artemidoro, no século II, mencionou que sonhar com a crucificação era um sinal de boa sorte para quem iniciava uma viagem marítima, comparando a construção da cruz (feita de postes e pregos) à de um navio e seu mastro.
Contexto Histórico e Práticas
Sêneca, o Jovem, registrou o uso da crux compacta com travessa (patibulum) e do empalamento no primeiro século d.C. Já o historiador Flávio Josefo, em sua obra A Guerra dos Judeus, relatou que, durante a repressão romana, a quantidade de prisioneiros era tão grande que os soldados, por ódio e escárnio, pregavam as vítimas em cruzes de formas variadas, evidenciando que a prática podia divergir do padrão comum dependendo da situação e da vontade dos executores.
Perguntas frequentes
O que é a 'crux simplex'?
É um termo criado por Justus Lipsius para descrever uma cruz composta por uma única estaca ou poste, podendo ser usada para prender a vítima (ad affixionem) ou para empalamento (ad infixionem).
A cruz de execução sempre tinha o mesmo formato?
Não. Embora a forma de duas vigas fosse comum, autores como Sêneca e Josefo mencionam variações significativas, inclusive formas adaptadas por 'criatividade cruel' dos executores.
Qual a diferença entre crux commissa e crux immissa?
A crux commissa tem formato de 'T', enquanto a crux immissa tem o formato tradicional de cruz (†), onde a viga vertical se estende acima da viga transversal.
Existem evidências não cristãs sobre a estrutura da cruz?
Sim, o autor Artemidoro comparou a construção da cruz, feita de postes e pregos, à estrutura de um navio e seu mastro, confirmando a composição por múltiplas peças.